13 fevereiro 2007

HOJE APETECE-ME O POEMA

foto de António Manuel Pinto da Silva


O poema

O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Como rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo


Sophia de Mello Breyner
Livro Sexto (1962)

3 Comments:

Blogger rouxinol de Bernardim said...

A praia da poesia onde ainda se pode vislumbrar essa brisa eterna chamada Sophia de Mello Breyner Andressen.

A intemporalidade de alguns poemas conferem-lhes um estatuto imorredoiro.

Boa opção!

14 fevereiro, 2007 08:14  
Blogger CÁ FICO said...

Já não há poetas.. apenas mercenários da pena... acorrentados ao sistema!

14 fevereiro, 2007 09:35  
Anonymous antonio pedro ribeiro said...

eu sou um poeta livre como o mar de Posseidon, de Ulisses e de Sophia.

20 fevereiro, 2007 03:13  

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