12 outubro 2007

PRECISAMOS DE JORNALISMO


Quando pela terra se rasteja no subsolo da decência, nas luras que ficam abaixo do respeito e da falta de pudor, se descontextualizam os factos para os deturpar de forma vil, se avança leviana e desavergonhadamente pelo terreno da privacidade, violando o que é íntimo, para se fazer chacota no jogo da subserviência aos amos, é mesmo útil ler o artigo do Jornalista Joaquim Fidalgo.

Precisamos de JORNALISMO e não de bisbilhotice!
Precisamos de INFORMAÇÃO e não de intoxicação!

"Vocês os jornalistas..."

Uma revista decidiu pegar na fotografia e ampliar o papel que Sarkozy levava na mão, de modo a poder ler-se o que dizia... O Presidente francês, Nicolas Sarkozy, saiu de uma reunião com um molho de papéis debaixo do braço. Coisa normalíssima.
Um desses papéis estava escrito à mão e voltado para fora. Via-se que estava escrito, mas, à distância, não conseguia ler-se. Coisa normalíssima.
Diversos fotógrafos captaram imagens do presidente à saída da reunião, com os papéis debaixo do braço. Coisa normalíssima para uma figura pública, num espaço público. Uma revista decidiu pegar na fotografia e ampliar o papel que Sarkozy levava na mão, de modo a poder ler-se o que dizia. Alto lá! Isto já não é nada normal...
O escrito parecia uma carta de amor. Assunto privado, portanto. Mas nem por isso a tal revista deixou de ampliar a fotografia e de dar a ler a todos os seus leitores o conteúdo da dita "carta de amor". Normal, isto?... Jornalismo, isto?... Bisbilhotice, é o que é. Pura e simples bisbilhotice.
Palavra puxa palavra, começou a circular o boato de que Nicolas Sarkozy teria uma namorada secreta, pois a carta ampliada parecia comprometedora. Minha nossa!... Não há limites?...
Acabou por se esclarecer (mas teve de se vir esclarecer a público, imaginem só!) que a carta era, afinal, de uma amiga de Sarkozy e dirigida, afinal, à sua mulher. Ou seja, não havia namorada nenhuma. E que houvesse...
Quando ouço ou leio histórias destas, fico envergonhado enquanto jornalista. Começo a imaginar que as pessoas olham para mim e pensam "cuidado, vamos esconder tudo, fechar a boquinha, tapar a cara, que vai ali um daqueles abutres". E sinto-me mal. Vou a um restaurante e, se sabem que eu sou jornalista, as pessoas em volta calam-se, porque nunca se sabe se eu vou tentar escutar as suas naturalíssimas conversas privadas... Entro num escritório e, se sabem que eu sou jornalista, as pessoas tapam os papéis e fecham as gavetas, não vá eu surripiar qualquer coisa ou ler um apontamento pessoal... Isto não é normal, pois não? Eu sei que seria incapaz de fazer uma coisa dessas, mas as pessoas não sabem se sou; e como sabem que alguns, também intitulados jornalistas, são capazes de tudo isso, tendem a julgar todos pela mesma medida. Sinto-me mal quando as pessoas me criticam, mesmo impessoalmente, com um abanar de cabeça e um triste "vocês, os jornalistas!..."E o que é que havemos de fazer? Que é que pode ou deve acontecer ao "jornalista" que ampliou a carta pessoal de Sarkozy? Que é que pode ou deve acontecer ao director da revista que a publicou? Se não chega a ser assunto de lei ou de tribunal, ficamos assim, sem mais, lamentando até que surja a próxima? Aceitamos, nós todos, deixar-nos confundir com quem não tem respeito por nada?Estas questões discutiram-se um pouco a propósito da revisão do Estatuto do Jornalista. Surgiram movimentos de opinião, abaixo-assinados, promessas auto-reguladoras. Mas já esfriou tudo. Voltarão a discutir-se no final deste mês, numa conferência internacional em Lisboa, sob os auspícios da Entidade Reguladora da Comunicação Social. E era bom que continuassem a ser discutidas, para ver se se chega a algumas conclusões. A bem dos jornalistas, sim - mas sobretudo do público.

JOAQUIM FIDALGO, Jornalista, Público, 10 de Outibro de 2007



8 Comments:

Blogger CÁ FICO said...

Faz parte do código deontológico dos jornalistas, não se pronunciar sobre questões judiciais pendentes em tribunal nem revelar as fontes onde obteve a sua informação, eguardar segredo sobre dados que obteve em contacto com processos em segredo de justiça...Tudo isto para proteger o bom nome dos visados (arguidos ou não)e aintimidadde da sua vida privada...

12 outubro, 2007 23:09  
Blogger Manuel CD Figueiredo said...

O JORNALISTA José Manuel Fernandes, Director do "Público", escreveu no seu Editorial de 08 de Junho de 2007:
"(...) Nas democracias espera-se que a imprensa vá além da retransmissão das mensagens oficiais, antes as questione. E que revele o que elas omitem. Isso não faz da imprensa oposição, ou mesmo contra poder ou quarto poder, mas apenas um dos instrumentos que permitem à opinião pública aferir a acção dos poderes públicos".

Um jornalista(?) não pode servir-se da sua Carteira Profissional para ofender a dignidade das pessoas; a partir do primeiro instante em que o faça, deixou de merecer o mínimo respeito e de ser uma pessoa com alguma dignidade; e uma pessoa sem dignidade NÃO pode ser jornalista.

13 outubro, 2007 00:07  
Anonymous ramodebarro said...

"Bisbilhotice" e "intoxicação" é o que mais há neste jornalismo de campanário, neste paroquialismo fétido e enfastiante...



sol.sapo.pt/blogs/ramodebarro.blogspot.com

13 outubro, 2007 12:25  
Anonymous Anónimo said...

Eurico Tiago. Que nojo!

15 outubro, 2007 12:13  
Anonymous Anónimo said...

Quem semeia ventos...

16 outubro, 2007 08:47  
Anonymous Anónimo said...

Pois é...
quem mexe no boi quando está comer apanha coice!

As sacanagens que estão a fazer ao Garcia e à família, são coices por ele ter a coragem de enfrentar um bando de intocáveis.

A povoa esta um lamaçal medonho.

M.M.C.

16 outubro, 2007 10:01  
Anonymous M.Ramos said...

Quando é que os poveiros percebem que este ambiente politico so serve os oportunistas? A politica nesta terra esta um lamaçal. Eu se fosse o garcia mandava isto tudo pró caraças!

16 outubro, 2007 13:32  
Blogger rouxinol de Bernardim said...

Caro Garcia:

Não vergue! Não dobre a cerviz!
Sorria e... não deixe de ver a "Mensagem", não a de Fernando Pessoa, mas a de Jardim a Cavaco!

Jardim está um pouco disseminado por este pobre "Contenente" (sic) e a prova cabal é esta "Macelândia" (seu neologismo) cheia de salmonelas nas veias e de bolores bafientos nos interstícios da mente...

17 outubro, 2007 08:02  

Enviar um comentário

<< Home