13 dezembro 2006

PREÂMBULO INVEROSÍMIL


O Município da Póvoa de Varzim, pioneiro na aplicação de medidas de desenvolvimento urbano sustentável, constata que muitas das práticas urbanísticas que, nos últimos anos, aqui têm sido defendidas e implementadas são, agora, assumidas como prioritárias pela doutrina oficial do Plano de Desenvolvimento Regional 2000-2006 que (…) no tocante a “Transportes e Acessibilidades”, prescreve a implementação de “planos de circulação, estacionamento e transportes em centros urbanos”, planos esses que, no nosso caso, têm de impor uma forte contenção à mobilidade em automóvel privado, com a clara preferência pelo transporte público – de evidente qualidade e adequado à malha urbana por onde circula – projecto em que o Município agora se debruça seriamente.”
(…)
“Porque é hoje indiscutível que a (falta de) qualidade do ar e a poluição sonora – duas das imediatas consequências da constante e intensa circulação automóvel em meios urbanos – contribuem decisivamente para a degradação do ambiente biofísico da Cidade.
Mas é evidente que a vida urbana, hoje, é impossível sem o automóvel – que tem de passar de inimigo a aliado. E se o acesso do automóvel à Cidade deve ser interdito (nalguns locais) ou condicionado (noutros), há que organizar a cidade oferecendo aos cidadãos, como se disse, uma rede de transportes públicos de qualidade e parques de estacionamento (sobretudo) periféricos.”



1. Este texto é um extracto do Preâmbulo do REGULAMENTO DE UTILIZAÇÃO DE LUGARES PÚBLICOS DE ESTACIONAMENTO COM DURAÇÃO LIMITADA, aprovado pela Câmara Municipal em 20 de Março de 2000 e pela Assembleia Municipal quinze dias depois.
Independentemente de algumas incongruências do Regulamento, que importa resolver oportunamente, e da falta de articulação com uma estratégia de mobilidade, o Preâmbulo esclarece quanto ao modo de ver uma e outra coisas no âmbito de um modelo de desenvolvimento sustentável da cidade.
Subscrevo praticamente sem reservas os conceitos e as medidas nele defendidas, mas há uma perplexidade que não posso esconder, pelo menos a mim próprio:
- como é possível afirmar o imperativo de “planos de circulação, estacionamento e transportes em centros urbanos”, planos esses que, no nosso caso, têm de impor uma forte contenção à mobilidade em automóvel privado, com a clara preferência pelo transporte público”, e, ao fim de seis anos nada ter feito a propósito? Sobretudo quando, pelo meio se aprovou um Plano de Urbanização e decorre – no segredo de quatro paredes ciclópicas – a revisão do PDM?
- como é possível alegar um empenhamento na criação de transportes públicos ao ponto de se afirmar que se trata de um “projecto em que o Município agora se debruça seriamente”, quando, depois de um estudo da FEUP atirado para a margem das mais imediatas preocupações, se esvaiu o projecto e a vontade de o construir?
- como é possível reconhecer quea falta de qualidade do ar e a poluição sonora…contribuem decisivamente para a degradação do ambiente biofísico da Cidade”, e nada se fazer para reduzir as causas do fenómeno?
- como é possível reconhecer que “o acesso do automóvel à Cidade deve ser interdito (nalguns locais) ou condicionado (noutros)” e que é preciso organizar a cidade oferecendo aos cidadãos “uma rede de transportes públicos de qualidade e parques de estacionamento (sobretudo) periféricos”, mas, ao contrário, não construir nada de novo senão um parque subterrâneo central para cerca de 600 viaturas e ceder a sua exploração à iniciativa privada? E, depois de ter autorizado a exploração privada do parque da Praça do Almada, como é possível admitir para breve a cedência para o sector privado da exploração do parque do Casino, perdendo mais um instrumento indispensável à correcta gestão da mobilidade urbana, como entendem os Municípios onde o estado da arte da mobilidade está mais desenvolvido?

2. Neste Preâmbulo há uma parte que, sem dúvida surgiu por cá: um umbiguismo presunçoso que alastra nos interstícios decadentes do discurso oficial. Na verdade, não fica bem dizermo-nos pioneiros de uma prática – sem a originalidade propalada -, que chegou tarde e apenas materializa fragmentos soltos e desarticulados, logo a seguir contrariados por caprichos que inviabilizam uma verdadeira política de desenvolvimento sustentável.
Olhar para o umbigo com as mãos em arco nas têmporas e afirmar que a nossa prática – casuística e solta, mais preocupada com as diagonais de pedrinhas dos pavimentos que com uma visão global e estratégica da cidade – determinou a doutrina que outros sintetizam num documento orientador para todos, fundado no que é conhecido aqui e além fronteiras, não é mais do que a expressão grotesca e provinciana de uma grande falta de Cultura.

3. Fique a pergunta pertinente e necessária: será que este preâmbulo, afinal, não passa de um copy/past do de um outro Município a que se mudou apenas o nome da cidade?

8 Comments:

Blogger Maresia poveira said...

Caro Silva Garcia

Parabéns, pelo maravilhoso texto.
É assim que tem quer ser, pena é qe não chegue a todos os poveiros.
Continue, sempre assim.

14 dezembro, 2006 10:09  
Blogger rouxinol de Bernardim said...

Não se pode dizer que a câmara não tem "boas intenções"... só que... lá diz o povo:

"De boas intenções está o inferno cheio..."

14 dezembro, 2006 12:04  
Anonymous Anónimo said...

Boas intenções não diria.
Agora intenções de bem embalar o pagode, não faltam.

14 dezembro, 2006 13:57  
Blogger Manuel CD Figueiredo said...

Fica-se sem resposta quando se pergunta o que é que se fez nestes quase 7 anos, sobre este assunto de VITAL importância para o desenvolvimento da cidade e do concelho, e fica-se sem resposta quando se pergunta qual o destino dado ao estudo da FEUP. Isto acontece porque há pessoas com responsabilidade que são incapazes de dizer a verdade.
Tudo se faz, como querem e lhes apetece, sempre com a estafada justificação do "sufragado pelos poveiros"!
Afinal, pergunto eu, porque NÃO CUMPRIU a maioria PSD do executivo camarário o compromisso assumido em 2000?
O desenvolvimento da Póvoa retrocede! A qualidade de vida dos poveiros vai de mal a pior! E esta Câmara "sufragada" continua "seriamente debruçada"...

15 dezembro, 2006 10:26  
Blogger CÁ FICO said...

O problema do trânsito na cidade .."Cidade- entenda-se Freguesia da Póvoa de Varzim" nunca será resolvido.. eos seus estacionamentos se se pensar emternos de Freguesia-cidade...A "mentecapto-ideologia" de dividir Póvoa (freguesia-sede do concelho) das demais "aldeias"...(só esse conceito de"aldeias já é abjecto) leva aos atropelos e erros dos sucessivos executivos autárquicos...Quem mora nas "aldeias" sabedo que falo e sente-o todos os dias no trânsito...ounde uma espécie de fortaleza ou entrave não o deixa livremente e no trajecto mais curto possivel (logo o mais económico em tempo e combustiveis
para o próprio epara o estado)ao seu destino. Parcómetros ou estacionamentos d duração lçimitada são erros graves na gestão da coisa publica e que por eles opta deviaser logo demitido..eu sei que se balozam em estudos de arquitectos e engenheirso do trânsito que dizem que é preciso limitar os acessos às cidades, etc.etc.. e esses métodos são eficazes...Mas não acham megalomano comparar a Póvao ao Porto , a Paris ou Nova Iorque?
Porque o Habitante da Avenida Mouzinho pode se deslocar a pé ao Mercado, à Praia, ao Hospital,à Câmara Municipal, e os das Aldeias tem que dar voltas no trânsito por RUAS DE DUVIDOSO SENTIDO ÚNICO, SEMAFOROZAÇÃO E DESVIOS, QUE MAIS PARECEM TER SIDO TRAÇADOS PELO ESGAR DA VINGANÇA DE UM LOUCO QUE DO INTERESSE PUBLICO...

19 dezembro, 2006 07:24  
Anonymous Anónimo said...

Está a morrer este blog de escárnio e mal dizer... é pena, pois eu muito me ri nestes últimos meses.

Mas é verdade, o senhor Silva Garcia, agora que tem um processo judicial em cima está a ter mais cuidado.

21 dezembro, 2006 16:42  
Anonymous Anónimo said...

O "cá fico" tem razão.
Claro que os parquímetros são bons para quem mora na cidade e usa o carro para deslocações dentro da mesma.
Mas há que contar com os que não são da cidade e com os que, por exemplo, têm que se dirigior à cidade para apanhar o metro, para ir trabalhar fora.
O problema é que os vereadores não sentem os problemas dos seus munícipes. Se fossemos todos vereadores, não havia problemas.

22 dezembro, 2006 09:33  
Blogger Mário de Sá Peliteiro said...

Bom Natal para o futuro Presidente da Câmara e família.

23 dezembro, 2006 12:32  

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