30 dezembro 2006

O ÚLTIMO SÁBADO...



Ao ser condenado à morte na sequência de um julgamento inquinado e com decisão anunciada, e ao ser executado sem demora, Saddam Hussein foi vítima do seu próprio feitiço. Os que pereceram às garras do sistema brutal que criou, nem oportunidade tiveram para a farsa de um julgamento: foram torturados individualmente e assassinados em massa, sem dó nem piedade.

Saddan, calmo e vestido de negro, foi executado antes do nascer do sol. O enforcamento deixa, todavia uma questão incontornável: uma nova era de liberdade e democracia não se constrói percorrendo os mesmos caminhos da barbárie, usando os métodos intolerantes que um dia considerámos abjectos e contra a Humanidade. A pena de morte continua a ser uma não-solução que, nestes casos, serve apenas circunstanciais propósitos políticos e de poder.
Portugal foi pioneiro na abolição da pena de morte e na renúncia à sua execução mesmo antes de abolida. Sobre isso, Victor Hugo disse em 1876: “Felicito a vossa nação. Portugal dá o exemplo à Europa. A Europa imitará Portugal.”
Cem anos mais tarde, no colóquio internacional comemorativo do centenário da abolição da pena de morte, realizado em Coimbra, Miguel Torga e Vergílio Ferreira falaram assim:
"A tragédia do homem, cadáver adiado, como lhe chamou Fernando Pessoa, não necessita dum remate extemporâneo no palco. É tensa bastante para dispensar um fim artificial, gizado por magarefes, megalómanos, potentados, racismos e ortodoxias. Por isso, humanos que somos, exijamos de forma inequívoca que seja dado a todos os povos um código de humanidade. Um código que garanta a cada cidadão o direito de morrer a sua própria morte". Miguel Torga
"...E acaso o criminoso não poderá ascender à maioridade que não tem? Suprimi-lo é suprimir a possibilidade de que o absoluto conscientemente se instale nele. Suprimi-lo é suprimir o Universo que aí pode instaurar-se, porque se o nosso "eu" fecha um cerco a tudo o que existe, a nossa morte é efectivamente, depois de mortos, a morte do universo". Vergílio Ferreira

Este é, pois, um dos valores fundamentais a defender em qualquer situação, pelo que significa de avanço civilizacional e como expressão de humanismo e de portugalidade.

Associando-se à declaração da Presidência da União Europeia, o governo português manifestou a sua "total oposição à pena de morte" contra Saddam Hussein, por considerar que a medida é "contrária à dignidade humana”.
Em Waco, no Texas, o presidente George W. Bush elogiou a condenação à morte de Saddam Hussein, classificando-a como um avanço no caminho do país árabe para a Democracia. Elogiou também a valentia e o empenhamento das forças de segurança iraquianas e o sacrifício dos soldados norte-americanos que estão no Iraque: “Sem a sua valentia e sem a sua destreza, este veredicto nunca teria ocorrido”, disse Bush.
Horas antes, o seu porta-voz, Tony Snow, declarou que o governo norte-americano elogiava o sistema judicial iraquiano e negou as denúncias de que a sentença foi orquestrada em Washington.

A Amnistia Internacional também esteve no Iraque, sempre na linha da frente da defesa dos Direitos Humanos contra a brutalidade da ditadura protagonizada por Saddam. Conhece bem os casos de horror e, tal como os que sofreram a noite negra desse regime horrendo, tem um milhão de razões para exigir Justiça.
No entanto, em coerência com os valores que defende, o Director do Programa Regional para o Médio Oriente e Norte de África da Amnistia Internacional, Malcolm Smart, considera que “responsabilizar Saddam Hussein pelas violações de direitos humanos generalizadas cometidas pelo seu regime é absolutamente correcto, mas para fazer justiça é necessário que o processo seja imparcial, e infelizmente, este não foi o caso."
Segundo Smart, o julgamento de Saddam Hussein e das sete pessoas que com ele foram acusadas perante o Supremo Tribunal Criminal do Iraque, além de outras falhas graves, terá sido minado por irregularidades e extremamente injusto, devido às interferências políticas que fragilizaram a independência do tribunal.

Independentemente de tudo isto, há uma sensação de que a hipocrisia continua a ser o elixir dos vencedores do momento. E é impossível não perguntar pelos poderes do mundo democrático, políticos e económicos, que se serviram num dado momento de Saddan, fingindo ao mesmo tempo que não conheciam as suas vítimas e a desumanidade da sua intolerância. Ou como podem eles manter-se indiferentes a outros ditadores igualmente facínoras, que contam no seu curriculum idênticas façanhas contra a Humanidade, apenas porque a Diplomacia dos interesses económicos e geopolíticos a isso obriga.
É impossível conter a náusea que se espalha na consciência ao confirmar, pela enésima vez, a hipocrisia que atrasa a História em direcção ao Mundo Novo.

Em relação ao destino a dar a Saddam Hussein, ele admitiria muitas soluções, excepto uma: está no quinto mandamento!
No último sábado do ano, antes do nascer do sol, o ditador Saddan Hussein foi executado por enforcamento.
Terá a ganho a Justiça, a Democracia e os Direitos Humanos? Julgo que não! “O julgamento deveria ter constituído um marco no estabelecimento de um estado de direito no Iraque após décadas de tirania de Saddam Hussein. Foi uma oportunidade falhada."

O enforcamento de Saddam às mãos da nova "justiça" iraquiana evidencia o que já há muito se temia: que, à semelhança das, afinal, inexistentes "armas de destruição maciça" do Iraque, também o Estado de direito inexiste, agora, nesse país. Com esta morte do antigo ditador, a tão propalada "superioridade moral do Ocidente" acabou por sofrer mais um abalo.

9 Comments:

Blogger rouxinol de Bernardim said...

De facto a pena de morte é uma barbaridade. O "olho por olho dente por dente" é que tem levado o mundo ao abismo a que se chegou.

Será o passo que faltava para a guerra civil total?!!

01 janeiro, 2007 10:00  
Anonymous Pedro Bandeira said...

VER

IRRACIONALIDADE E BARBÁRIE
http://causa-nossa.blogspot.com


É o que representa a execução de Saddam Hussein. Um passo mais na escalada caótica de regressão civilizacional no Iraque e no mundo, cortesia da Administração Bush e governos coligados.
Saddam foi um dos mais cruéis torcionários do sec. XX. Merecia um julgamento exemplar, processualmente inquestionável. E uma condenação severa, justa. Mas a pena de morte nunca pode ser justa: é uma barbaridade, ao nível das que Saddam cometeu. Cortesia da Administração Bush e governos coligados, sujeitaram-no antes a uma fantochada de justiça e executaram-no.
Saddam merecia viver para cumprir pena pesada e expiar de forma humilhante as incontáveis atrocidades que ordenou contra o seu povo e outros povos. Para que morresse um dia sabendo que ninguém mais no mundo árabe dava o seu nome a um filho. Em vez disso, cortesia da Administração Bush e governos coligados, morreu confortado por se tornar um mártir para muitos sunitas.
Porque não se julgou Saddam numa instância de justiça inquestionável, como poderia ser um tribunal no Iraque, mas obedecendo aos padrões do direito internacional e integrado por juízes, advogados e procuradores estrangeiros (americanos até), ao lado dos iraquianos?
Porque não interessava fazer luz sobre muitos dos mais tenebrosos crimes cometidos pelo regime de Saddam Hussein. Porque muitas potências, com os EUA à cabeça, e muitos governantes estrangeiros (incluindo Donald Rumsfeld) haviam sido cúmplices ou encobridores desses mesmos crimes. Como o extermínio dos habitantes da aldeia curda de Halabja, em 1988.

01 janeiro, 2007 22:10  
Blogger CÁ FICO said...

pena de morte? Tal como em Cuba!

02 janeiro, 2007 09:46  
Anonymous Francisco Marques said...

Pena de morte... como na China e em tantos outros países dos quais não se pode deixar de destacar o "mais democrático dos democráticos", o "mais livre dos livres", "o mais moderno e civilizado dos modernos e civilizados do mundo e arredores": os ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA - aquele onde se mata mesmo, e onde rapta e se transporta às escondidas... curiosamente também para Guantanamo...em Cuba! Nunca persebi como é que os yankees continuam a ter uma cadeia em Cuba...

02 janeiro, 2007 13:02  
Blogger Mário de Sá Peliteiro said...

Também sou contra a pena de morte. Agora dizer que o «julgamento foi injusto» ou que a «"superioridade moral do Ocidente" acabou por sofrer mais um abalo» parece-me um pouco desajustado.

02 janeiro, 2007 22:23  
Blogger CÁ FICO said...

a Cuba da pena de morte a que me refiro é a Cuba de Fidel...Tanto quanto sei ninguém é executado em Gantanamo...nem nos Açores, nem em outras bases Norte Americanas,por esse mundo fora...
e já agora aqueles que acham que o Tarrafal era o pior detudo lembrem-se que o regime ditatorialque se instalou em angola com o apoio soviético-cubano tinha cadeias, (tem?) para os seus opositores, que~deixam o tarrafal amilhas da crueldade e violação dos direitos dos prisioneiros, politicos e militares...e mais... Ainda lá existem prisioneiros de consciência e rebeldes militares..

03 janeiro, 2007 15:49  
Anonymous Anónimo said...

O próximo a ir à forca é o Garcia! eh eh eh!!!

04 janeiro, 2007 12:29  
Blogger Pobeirinho said...

A pena de morte nada resolve. Transforma monstros em mitos e depois desencadei ódios.
Ainda bem que somos um País pequeno em tamanho mas GRANDE na abolição da pena de morte.

05 janeiro, 2007 22:36  
Anonymous Anónimo said...

o garcia na forca!!! lol Mas enforcado está ele há muito!!!!

10 janeiro, 2007 12:36  

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