04 agosto 2006

AOS QUE VIEREM DEPOIS DE NÓS

Bertolt Brecht


Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranquilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
[(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.

Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.


BERTOLT BRECHT
(tradução do Poeta Brasileiro Manuel Bandeira)

4 Comments:

Anonymous Anónimo said...

nós até queriamos que ganhasse as eleições para acabar com estes corruptos, mas se continuar fechado a escrever poemas de brecht num blog e mão for para a rua contactar com o povo, nada feito senhor arq garcia

05 agosto, 2006 07:04  
Blogger CÁ FICO said...

MANUEL BANDEIRA...sim o Brasil tem muitas lições a dar a Portugal...
Getúlio Vargas..morreu demorte matada...ainda hoje sequestiona... e os que estavam antes e que vieram depois deixaram dele a saudade...Ainda hoje muitos que votam Lula se rememoram no póprio getúlio e no que ele representava e ainda representa...

05 agosto, 2006 09:33  
Blogger UNIVERSALEX said...

Tudo vai mal quando os governos reduzem a contabilista e economistas problemas que apenas podem ser resolvidos por JURISTAS...

Entre elas estão as quesetões das Férias dos Tribunais( que é coisa diferente de Ferias de cada Juiz)...


Aos que vierem depois, que não caiam em erros grosseiros como este:
"cada macaco no seu galho, cada roca no seu fuso"
E como diz Macedo Vieira :
" Só os burros é que não mudam..."

Será que ele vai mesmo mudar?

05 agosto, 2006 12:58  
Anonymous pobeirinho sem ser pela graça de deus said...

Não é só o "anónimo" que queria que o Arq. ganhasse as eleições, diga-se, mais por ele que por muitos que o acompanham, mas convenhamos que não é fazendo transcrições de poemas de Brecht que se ganham pessoas para a causa, menos ainda numa terra que cada vez mais é tomada de assalto pelos poderes ocultos. Eu sei que quem, como o Arq., não deve não teme, mas tem de ir para a rua, falar e fazer falar. Aqui, na cidade, mas também nas freguesias. Ouvir, pra ser ouvido. Hoje um, amnhã dois, talvez daqui por uns tempos, muitos mais.
Falar, ouvir, e escrever, mas pouco. A ileteracia poveira é alimentada e cultivada pelo falar, ouvir falar, nunca por ler e saber ler. Vá pelos seus pés, e os poemas serviram para, falando, escrever a páginas de mudança.

06 agosto, 2006 04:46  

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