14 fevereiro 2006

SENTIDO INCONFORMISTA




“Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles foram meus, não são seus. Se o criador o tivesse querido juntar muito a mim não teríamos talvez dois corpos distintos ou duas cabeças também distintas. Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição, venha a pensar o mesmo que eu; mas, nessa altura. já o pensamento lhe pertence. São meus discípulos, se a1guns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem.”

Agostinho da Silva, in "Cartas a um jovem filósofo"



George Agostinho Baptista da Silva nasceu no Porto a 13 de Fevereiro de 1906 (de família alentejana e algarvia), tendo vivido parte da sua infância em Barca de Alva, junto do rio Douro, localidade que muito o marcou.
Após concluir a Licenciatura e Doutoramento em Filologia Clássica na Faculdade de Letras do Porto, frequenta a Escola Normal Superior em Lisboa, tendo recebido uma bolsa para estudar em França. De regresso a Portugal, foi colocado no Liceu de Aveiro onde recusou assinar uma declaração que o obrigava a não seguir a ideologia marxista.
Tal como ensinava a liberdade de pensamento, assim procedeu, tendo sido demitido.
Entre 1935 e 1944, reside em Madrid (como bolseiro) e depois em Lisboa (vivendo de aulas no ensino particular e de explicações) onde se relaciona com o grupo Seara Nova, e, posteriormente com António Sérgio.
Em 1944, parte para o Brasil, onde escreve nesse mesmo ano o livro Considerações. Reside no Uruguai e Argentina, realizando trabalhos no domínio da histologia.
Em 1947, regressa ao Brasil, onde ajudou a fundar universidades (afastadas, normalmente, dos grandes pólos de desenvolvimento), de estações científicas, de centros de pesquisa e intercâmbio, a par de intensa actividade pedagógica e pesquisas em entomologia e parasitologia.
Em 1953, publica a sua única obra de ficção propriamente dita, Herta, Teresinha, Joan.
Realiza inúmeras viagens pelo mundo, visitando países como Japão (que percorre demoradamente), Macau e Timor.
Em 1969, passa a residir em Portugal, tendo sido nomeado conselheiro e consultor junto do ICALP, e ainda no Centro de Estudos da América Latina - Universidade Técnica de Lisboa.
Morre em Lisboa no Hospital de S. Francisco de Xavier num domingo de Páscoa, a 3 de Abril de 1994.
Entre as suas muitas obras, destacam-se: Lembranças sul-americanas; Sete cartas a um jovem filósofo; Do Agostinho em torno do Pessoa, Sentido Histórico das Civilizações Clássicas, A Religião Grega, Miguel Eyquem, Senhor de Montaigne, Considerações, Reflexão e Aproximações.

2 Comments:

Blogger UNIVERSALEX said...

Palavras para quê?

como são ridiculos esses cursos de formação profissional para formadoresprofissionais do IEFP...

como se os trabalhadores desempregados fossem desqualificados...

Desqualificados são os patrões que vão à falência e estouram com as empresas...E ainda se vêem armar em formadores...

Barbaridades!

tudo isto a propósito do "pensamento" de Agostinho da Silva... autodidata.. e outros contos...

14 fevereiro, 2006 18:50  
Blogger CEFAS said...

A vida e sobretudo o pensamento de Agostinho da Silva sugerem-me muito mais do que os cursos do IEFP...

Aliás ele pensava o que vivia e viveu o que pensa.E isto nos dias que correm não está ao alcance de qualquer um.
Ele acreditava convictamente no ser humano único e irrepetível mas simultaneamente integrado numa comunidade que acaba por lhe dar sentido.

Quando vejo o Portugal que ele pensou,não posso deixar de me sentir desiludido com os horizontes curtos da sociedade mais "in" deste país, que no fundo nos (des)governa...

Afinal,Agostinho não fez mais do que traduzir num tom coloquial a vida e obra dos 3 maiores portugueses de sempre: Camões,P.António Vieira e Fernando Pessoa.

Passados alguns anos quando volto ler os seus pensamentos,vejo até que ponto eles fazem parte da minha consciência e daquilo em que acredito.Sim,sou talvez um mau exemplo(disciplo) mas no essencial acredito nas suas utopias.

14 fevereiro, 2006 21:11  

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