30 janeiro 2006

Ai, Portugal

A pedido de quem não consegue aceder ao PÚBLICO on-line


Ai, Portugal!



Joaquim Fidalgo
Crer para Ver


Ele era, dizem, um funcionário exemplar da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim. Em cerca de dez anos de carreira, nunca faltara ao trabalho. E de repente, sem ninguém contar, dá uma falta injustificada. E logo a seguir outra, e outra... Cinco. Cinco faltas injustificadas. Caso grave! Deu processo disciplinar, ao fim de apenas duas semanas já havia relatório final. Foi o assunto à reunião de câmara e o funcionário recebeu a adequada punição (a segunda mais grave da administração pública, dizia o jornal): compulsivamente mandado para a reforma. E lá foi ele para casa, com uma reformazita de pouco mais de três mil euros mensais - 627 contos, para sermos precisos. Grande castigo, sim senhores!...Prematuramente aposentado, mas ainda cheio de força para trabalhar, bastaram mais duas semanas a este funcionário exemplar para ser convidado para nova função: administrador de uma empresa municipal. De que câmara? Da da Póvoa de Varzim, obviamente... E lá ficou o nosso homem a acumular a reforma antecipada de seiscentos e tal contos mensais com outros tantos centos, não sei quantos, do novo cargo numa administração. Bem vistas as coisas, não lhe correra mal a vida...Mas "Deus é grande", como diz o povo, e justiça havia de ser feita. O caso acabou por ir parar ao tribunal. Havia coisas estranhas na história: um funcionário tão cumpridor a dar, de repente, várias faltas ao serviço, um processo disciplinar rápido como nunca se viu, o funcionário sem esboçar sequer uma contestação, um recurso, uma decisão rapidíssima de passagem à reforma, logo a seguir o convite (do mesmo patrão que o "castigara") para uma função de responsabilidade, tantas coincidências... Acabou por se concluir que aquilo tinha sido tudo bem urdido e mais ou menos combinado. E o juiz condenou o homem por abuso de poder. Bem feito! Qual foi a pena? Uma multa de 4650 euros. Isso mesmo: só uma multa de 4650 euros!... E a vida continuou, e a vida continua. Afinal de contas, o próprio juiz afirmara, na sala do tribunal, que aquele era um procedimento relativamente vulgar na autarquia e eram conhecidos diversos casos semelhantes de "passagens compulsivas à reforma" por faltas injustificadas... Ou seja, um "esquema". E a gente fica a pensar quantos funcionários, naquela câmara municipal, ou noutras, ou nos serviços públicos que por aí abundam, estão hoje calmamente e antecipadamente a gozar as suas reformas como "castigo" por terem incumprido alguns deveres profissionais. Castigos destes venham muitos...Mas nem tudo é negativo na história. Veja-se como, por vezes, a administração pública é célere: pouco mais de um mês para abrir um processo disciplinar, instruí-lo e dar o veredicto! Serviços eficientes... E os que dizem que a justiça em Portugal não funciona têm aqui uma boa resposta: a justiça funcionou às mil maravilhas e também depressa, pois o homem foi rapidamente "punido" com a tal reforma e, descoberta a marosca, voltou a ser "punido" com uma pesada multa de 4650 euros. Quem disse que o crime compensa?!...

Jornalista
POL nº 5787 Quinta, 26 de Janeiro de 2006

4 Comments:

Blogger UNIVERSALEX said...

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30 janeiro, 2006 13:24  
Anonymous Anónimo said...

alguém cala este universalex tiranausauros rex?

30 janeiro, 2006 14:35  
Anonymous Anónimo said...

É pena não haver um tipo de crime do género "crime de falta de originalidade, bom senso e humor". O Universalex seria condenado a pena perpétua...

30 janeiro, 2006 18:50  
Blogger UNIVERSALEX said...

Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

30 janeiro, 2006 19:02  

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