15 janeiro 2006

MANUEL ALEGRE, O HOMEM DO PAÍS AZUL



“…os ratos não podem roer um homem / que grita não aos ratos... “ (1)

1. Abro o livro e esvoaça de novo a Trova do Vento que Passa.
Não preciso de agarrar os últimos versos, porque há muitos anos que me contagiam desde que os ouvi e me alimentam: “Mesmo na noite mais triste, em tempo de servidão, há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não.”
Estes versos colocaram “aquele, que desarruma um pouco as coisas sossegadas” no contorno dos que escolhi para referência das minhas próprias tentativas cidadãs.
Manuel Alegre, o Poeta, “o homem do país azul”, inconformista, capaz da esperança e amante da Liberdade (2), tem, por isso, a essência que me interessa neste momento, como símbolo da portugalidade.

2. Neste declíve que atrasa a esperança, urge de novo a utopia, não como esconderijo alienante, mas como semente do desenvolvimento. Urge de novo, a resistência ao que diminui nos homens a humanidade e, ao mesmo tempo, a visão romântica da política como acção transformadora. Urge pensar para além do imediato e do visível, porque é de valores e de princípios que Portugal carece. Urge inundar a jangada de pedra da profundeza da sua própria alma.
É esta a vantagem do poeta. Sobretudo do poeta de causas, construído nos dias das lutas difíceis, no breu bolorento da ditadura, ou nas intermitências negras da democracia que alguns impedem de crescer.

3. Em que é que se tem transformado Portugal às mãos dos economistas, dos magos dos números a que nos reduzem, reduzindo a realidade e a vida?
O que é Portugal depois de trocar cooperação por competição, solidariedade por flexibilidade, humanidade por produtividade, num rodopio de falsas promessas e onde se chega sempre ao lucro como principal objectivo que tudo justifica?
Um Portugal no escorregadio de uma rampa inclinada, um Portugal em deficit!
Não é de malabaristas de estatísticas e de projecções que Portugal precisa. Sobram os que nunca acertam no golpe da varinha mágica, mas que se deleitam a explicar os erros, que nunca assumem e sacodem do capote, mas que magoam a vida de todos!
A crise económica é a consequência de um modelo que já demonstrou não resolver os principais problemas da humanidade, que tem sido incapaz de eliminar a pobreza e a marginalidade, de suscitar a felicidade humana e a melhoria da qualidade de vida das pessoas, de forma generalizada e sustentadamente, dado que é um modelo predominantemente predatório e desumanizante.
Avolumam-se as injustiças e as riquezas que uma poderosa minoria acumula muitas vezes sem se saber como, ao mesmo tempo que aumenta assustadoramente o número dos que passam dificuldades.
Ao contrário da eterna mentira de Direita, assente na hipótese jamais confirmada de que primeiro é preciso criar riqueza para depois distribuir, é gratificante ouvir Manuel Alegre defender que “a melhor distribuição da riqueza é uma pré-condição para o desenvolvimento”.

4. Um novo paradigma se impõe construir.
SE querem falar de economia, direi que é necessário recolocar a Economia ao serviço das pessoas, coisa que – excepção feita a pessoas como Muhammad Yunus – a generalidade dos técnicos dos números não soube fazer.
O desafio que se nos coloca, pois, é o de novo lutar pelo primado do político sobre o económico, que é apenas um dos múltiplos lados da vida.

Nesta medida, é decisiva a nossa capacidade para revitalizar os valores da liberdade, da justiça, da igualdade, da fraternidade, da solidariedade, do respeito pela natureza, da cooperatividade, da criatividade cultural, da inovação organizacional, submetendo-os a uma permanente reactualização crítica, que os complete e enriqueça.
No fundo, será talvez um caminho para encarar o socialismo como um humanismo que possa aproximar o mundo de hoje da felicidade e de assumirmos causas, valores e ideias.

5. Na era global, prenhe de contradições, há que assumir o inconformismo e a incomodidade de um pensamento crítico. Cabe-nos combater as ideias feitas que, pelos média, contaminam os aparelhos ideológico-culturais dominantes, como se fossem a verdade definitiva. Precisamos de um pensamento crítico que nos impeça de confundir a realidade com o que gostaríamos que ela fosse, mas que não aceite aquilo que existe como uma fatalidade.
Neste sentido, a candidatura de Manuel Alegre assume a importância desse pensamento crítico, da força da consciência, do valor da opinião. Ela assume o direito de pensar, de criticar, de agir e combater. Ela constitui-se como um movimento de inquietação cívica mobilizador por todo o país. Partindo do pluralismo partidário, salienta o reforço dos movimentos de cidadania participativa. Com serenidade, mas com tenacidade e firmeza, propõe uma nova resistência às derivas da democracia e reinterpreta os caminhos da exigência e da honradez republicana. Assume o romantismo e a seriedade que o exercício da política tem perdido e recupera o valor da consciência e de como ela é soberana nas decisões.
Ouvi alguém que disse que Manuel Alegre apela aos portugueses por um Portugal melhor, feito por todos, debatido por todos, construído por todos e onde todos encontram a sua forma de sorrir.

6. É preciso incomodar. Trazer palavras como bofetadas. Tocar os sinos e transformar os destinos. Depois é madrugada.
Deste litoral poveiro, onde olho o mesmo mar que nos une, com a mesma vontade de navegar o caminho marítimo para o Progresso, afirmo com serenidade e limpidez o meu apoio a Manuel Alegre à Presidência da República.
Com o Homem de Princípios e Valores e com o Poeta, Portugal reencontrar-se-á com a sua Alma... Com ele Portugal escreverá o seu próprio poema de Liberdade…
A Liberdade também está a passar por aqui… Portugal é a nossa causa comum.


(1)
Manuel Alegre, in “Variações sobre O Poema pouco original do medo”, de Alexandre O´Neill

(2)
Manuel Alegre toda a vida combateu ao lado da Liberdade. Resistente anti-fascista, esteve preso pela PIDE e foi exilado político na Argélia durante 10 anos, de onde dirigiu a emissora da resitência “A voz da Liberdade”. Os seus dois primeiros livros, Praça da Canção e O Canto das Armas, foram apreendidos pela censura. Após o 25 de Abril lutou contra a censura de esquerda e a tentativa de sovietização de Portugal.
Foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, Comenda da Ordem de Isabel, a Católica e Medalha de Mérito do Conselho da Europa, de que é Membro Honorário.

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